ARTIGO DO CHICO HOJE NO JORNAL O GLOBO
EIS QUE CHEGA A PRIMEIRA VEZ QUE DESCORDO EM NÚMERO GÊNERO E GRAU COM CHIQUINHO DA GALERA
Biografia autorizada é missa de corpo presente. Toda figura pública é passível de uma biografio. E aí eu me perguntei pq as pessoas, inclusive eu. Cogitei muito a possibilidade mórbida da fofoca, a possibilidade nua e crua da curiosidade vazia, oca e fútil. É isso também! Mas um sujeito como o Chiquinho da Galera, que entrou na minha vida quando eu tinha 14 anos e me ensinou o que era redondilha em poesia, que me apresentou João Cabral de Mello (meu segundo poeta preferido), o homem que despertou meu desejo pela palavra... enfim um homem que teve mais influência sobre minha formação cultural que a escola, que a universidade e até maior que meus pais. É natural querer saber da vida desse mito na minha existência, os caminhos do fazimento que fizeram esse figura. No começo ele pergunta se o Roberto Carlos não tem direito à vida privada. Não, não tem. Nenhum homem público tem direito à privacidade. É o preço pago pela vida que escolheram. Se nós, pobres ninguéns, já não gozamos desse privilégio imagine Chiquinho da galera que mudou a cultura brasileira e lusófona. Há biógrafos desonestos, que inventam mentiras e fazem um furdunfo cafajeste na vida do biografado, mas pra isso existe a justiça e suas indenizações milionárias. Ai sim vale fortemente o "braço de estivador da justiça" citando o Chiquinho da Galera. Mas o uso prévio ds justiça além de covardia e suspeito: o que de tão grave não pode vir a ribalta? Será que as vilezas de todo, mas todo ser humano, deve ser diminuída em nome de um orgulho? Ou esses senhores fizeram coisas cabeludas que podem estragar toda sua história ou não compreenderam que as faltas, falhas, fracassos defeitos por vezes são a riqueza de uma vida! Eu sou pragmático, acredito mais na possibilidade escabrosa. Pena, pois não dá pra amar parcialmente ou todo ou nada. E uma coisa que eles não se deram conta: a partir dessa posição é que suas vidas serão alvos de buscad e mais buscas ferozes além de se tornarem vítimas fáceis da calúnia, porque se escondem e não falam nem permitem falar qualquer boato ganha voz e império de verdade incondicional. Se as vilezas humanas destruissem obras Voltaire, Balzac, Hemingway, Vinicius de Moraes, por exemplo, não estariam nos anais da humanidade.
Chiquinho da Galera, isso não é proteção de privacidade, e nós sabemos que não é, isso é moralismo. E moralismo não combina com um gênio que escreveu Calabar, o elogio da traição. Ou já não falamos da mesma pessoa ?
;)
Chico Buarque
Cantor, compositor e escritor
Pensei que o Roberto Carlos tivesse o direito de preservar sua vida pessoal. Parece que não. Também me disseram que sua biografia é a sincera homenagem de um fã. Lamento pelo autor, que diz ter empenhado 15 anos de sua vida em pesquisas e entrevistas com não sei quantas pessoas, inclusive eu. Só que ele nunca me entrevistou.
O texto de Mário Magalhães sobre o assunto das biografias me sensibilizou. Penso apenas que ele forçou a mão ao sugerir que a lei vigente protege torturadores, assassinos e bandidos em geral. Ele dá como exemplo o Cabo Anselmo, de quem no entanto já foi publicada uma biografia. A história de Consuelo, mulher e vítima do Cabo Anselmo, também está num livro escrito pelo próprio irmão. Por outro lado, graças à lei que a associação de editores quer modificar, Gloria Perez conseguiu recolher das livrarias rapidamente o livro do assassino de sua filha. Da excelente biografia de Carlos Marighella, por Mário Magalhães, ninguém pode dizer que é chapa-branca. Se fosse infamante ou mentirosa, ou mesmo se trouxesse na capa uma imagem degradante do Marighella, poderia ser igualmente embargada, como aliás acontece em qualquer lugar do mundo. Como Mário Magalhães, sou autor da Companhia das Letras e ainda me considero amigo do seu editor Luiz Schwarcz. Mas também estive perto do Garrincha, conheci algumas de suas filhas em Roma. Li que os herdeiros do Garrincha conseguiram uma alta indenização da Companhia das Letras. Não sei quanto foi, mas acho justo.
O biógrafo de Roberto Carlos escreveu anteriormente um livro chamado Eu não sou cachorro não. A fim de divulgar seu lançamento, um repórter do Jornal do Brasil me procurou para repercutir, como se diz, uma declaração a mim atribuída. Eu teria criticado Caetano e Gil, então no exílio, por denegrirem a imagem do país no exterior. Era impossível eu ter feito tal declaração. O repórter do JB, que era também prefaciador do livro, disse que a matéria fora colhida no jornal Última Hora, numa edição de 1971. Procurei saber, e a declaração tinha sido de fato publicada numa coluna chamada Escrache. As fontes do biógrafo e pesquisador eram a Última Hora, na época ligada aos porões da ditadura, e uma coluna cafajeste chamada Escrache. Que eu fizesse tal declaração, em pleno governo Médici, em entrevista exclusiva para tal coluna de tal jornal, talvez merecesse ser visto com alguma reserva pelo biógrafo e pesquisador. Talvez ele pudesse me consultar a respeito previamente e tirar suas conclusões. Mas só me procuraram quando o livro estava lançado. Se eu processasse o autor e mandasse recolher o livro, diriam que minha honra tem um preço e que virei censor.
Nos anos 70 a TV Globo me proibiu. Foi além da Censura, proibiu por conta própria imagens minhas e qualquer menção ao meu nome. Amanhã a TV Globo pode querer me homenagear. Buscará nos arquivos as minhas imagens mais bonitas. Escolherá as melhores cantoras para cantar minhas músicas. Vai precisar da minha autorização. Se eu não der, serei eu o censor.






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